Gostava de estar aqui a contar-te que está tudo a correr normalmente, mas não corresponde à realidade. A verdade é que perdemos tudo e o que já tínhamos conquistámos e temos muito para recuperar.
Tenho por hábito ver sempre o lado positivo de todas as situações, e normalmente desvalorizo o lado negativo. Se por um lado é algo que a minha personalidade me traz é também uma defesa para as situações mais dolorosas… como esta!
Quando equacionei que o Martim podia ter autismo, foi algo que não me causou o incómodo que todos esperavam. Encarei como algo natural, como característica que é, que precisava de ser aceite e respeitada, como tantas outras. Não é isso que se espera de uma mãe? Que aceite o seu filho e o respeite?
Sabia que precisava de respostas, por isso fui à procura da confirmação de algo que eu já sabia. Mesmo tendo sido desvalorizado pelos profissionais de saúde de rotina, bati o pé!
“Mas porque não aceitas essa opinião? Mas pode não ser nada “disso” ” Disseram-me tantas vezes.
“Isso” era o autismo! Como se tratasse de algo vergonhoso. Para mim nunca foi. E talvez por isso não tenha cedido a entrar em negação. Mas também sabia que não podia ficar parada! Sabia que as terapias eram fundamentais e que em idade precoce trariam mais e melhores resultados. Entrar em negação ou inercia só iria prejudicar o seu desenvolvimento.
Não me interpretes mal, nunca quis “curar” o autismo, até porque isso não é sequer possível. As terapias também não o fazem, apenas ajudam a ultrapassar dificuldades e desconfortos, que não os deixam tão disponíveis para desenvolver outras competências. E isso é fundamental!
Também por isso escolha do método terapêutico foi algo com o qual me preocupei, queria algo que respeitasse as suas características, que não fossem reprimidos qualquer tipo de sentimentos ou dificuldades.
Na verdade, conheço métodos terapêuticos em que isso não é respeitado, por ter como objetivo o de os tornar o mais “normais” possível. Não concordo com eles. Mas Autismo não é uma anormalidade, é simplesmente uma forma diferente de funcionar daquilo que é chamado o comum.
Desbravei caminho e consegui! Estava entregue a uns terapeutas fantásticos e como um ano depois de terapias regulares a evolução dele era notável! Tínhamos alcançado tanto em tão pouco tempo e ele estava pronto para dar o próximo passo! Entrar na escola era passar ao próximo nível… E tudo correu ao contrário como já te contei aqui!
Perdemos tudo o que já tínhamos conquistado, mas ainda andámos para trás.
Voltámos aos desconfortos e dificuldades iniciais, e ainda ganhou novos medos. As crianças voltaram a parecer perigosas, os adultos deixaram de ser de confiança, a comida tornou-se menos agradável, o sono voltou a não ser tranquilo.
O estado de ansiedade trouxe uma febre emocional que não o largou uma semana. E depois disso, sair de casa deixou de ser possível. Perdeu a vontade de fazer as coisas que mais gosta, brincar nas terapias, andar a cavalo, até ir ao “vai de carrinho” como ele chama ao hipermercado.
Perdemos todas as conquistas, mas não perdi o meu filho. Ele continua lá na sua essência, apenas está com medo. Como mãe só me resta acolher o seu medo e provar-lhe que o mundo é um lugar seguro, mesmo quando não o consigam aceitar.
